No RJ, eficiência movimenta idéias



Se depender do COPPE, da UFRJ, a mobilidade urbana carioca ganhará três
fortes aliados, em breve: o trem de levitação magnética, o combustível
a biodiesel e o ônibus a hidrogênio. Conheça os projetos desenvolvidos
e como eles podem ajudar a enfrentar esse problema tão moderno.


Com o objetivo de buscar novas opções de mobilidade dentro dos
centros urbanos, a Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de
Engenharia - COPPE, da UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro,
centro de excelência na pesquisa de novas tecnologias, aposta em
projetos dedicados ao desenvolvimento de transportes e combustíveis
alternativos.



Um deles é o trem de levitação magnética, projetado pela equipe do
Laboratório de Aplicações de Supercondutores - LASUP, batizado de
Maglev-Cobra. "Ele foi idealizado como um meio de transporte coletivo
para fazer deslocamentos dentro do perímetro urbano", explica Richard
Stephan, coordenador do projeto.



A levitação magnética não é novidade no mundo: já existem os
famosos trens-bala, que cruzam China, Alemanha e Japão, utilizando essa
tecnologia. No caso do Maglev-Cobra, a grande novidade é a utilização
de pastilhas supercondutoras, compostas de ítrio, bário e cobre, que
substituem as rodas. Entre esses módulos de levitação e os trilhos,
surge um campo magnético de repulsão a partir do esfriamento dos
supercondutores a temperatura negativa de 196º C, com o uso de
nitrogênio líquido.



Esse efeito só pôde ser explorado, devidamente, a partir do final
do século XX, com o surgimento de novos materiais magnéticos e
pastilhas supercondutoras de alta temperatura e a COPPE foi pioneira na
pesquisa dessa nova alternativa.



"A Alemanha também está interessada nos supercondutores, por isso,
estamos promovendo um intercâmbio entre nossos pesquisadores e os do
Instituto IFW - Leibniz Institute for Solid State and Materials
Research, informa Stephan.



Os pesquisadores brasileiros montaram no laboratório da COPPE um
protótipo do trem e um trilho de 30 metros de extensão, para testar a
tecnologia. A segunda etapa do projeto prevê testes em escala real,
seguidos de uma primeira utilização do veículo para o transporte de
pessoas dentro da Ilha do Fundão, na Cidade Universitária.



"O Maglev-Cobra se revela como ótima alternativa para o Rio de
Janeiro. Enquanto a construção de um metrô subterrâneo, aqui, tem o
custo de R$ 100 milhões/km, o sistema de levitação poderá ser
implementado por cerca de R$ 33 milhões, ou seja, um terço desse
valor", diz o pesquisador.



Apesar de atingir somente 70 km/h, o Maglev-Cobra pode operar com
inclinações de até 15%, ao contrário dos trens-bala, que só trafegam em
rampas de até 4% de inclinação. Sua estrutura, articulada em módulos de
1 metro de comprimento, permite, ainda, que o veículo faça curvas
acentuadas.



Já o consumo de energia elétrica do Maglev-Cobra será de 25 kJ
(quantidade de energia gasta para transportar cada passageiro por
quilômetro). Para se ter uma idéia, o consumo de um ônibus comum é de
400 kJ. "O trem de levitação é um meio de transporte não-poluente,
silencioso e econômico, alimentado, fundamentalmente, por energia
elétrica", conclui Stephan.



ÓLEOS VIRGENS E DESCARTADOS, COMO COMBUSTÍVEL



Para alimentar os motores possantes de ônibus e caminhões, a COPPE
vem desenvolvendo, também, estudos e tecnologias para viabilizar a
produção e o uso do biodiesel no Brasil, uma fonte de energia
sustentável que pode substituir o diesel.



As pesquisas realizadas na COPPE têm sido usadas como referência
para a implementação da política de biodiesel do Governo Federal. Foi
com base nessas pesquisas que o governo autorizou, em 2005, a inserção
de 2% de biodiesel na composição do diesel mineral, sem que fosse
necessário fazer qualquer adaptação nos veículos já em circulação.



A COPPE produz biodiesel a partir de óleo de soja e de óleo de
fritura descartados, numa planta com capacidade para produção de 1.200
litros/batelada (cada batelada leva de uma a quatro horas, dependendo
da matéria-prima).

No Laboratório de Análises Químicas da COPPE, é feita a avaliação
para constatar se o combustível atende às especificações de qualidade
da Agência Nacional de Petróleo - ANP. A partir dessa etapa, ele é
enviado ao Instituto Nacional de Tecnologia - INT, que é credenciado
pela ANP para emitir laudos de aprovação do combustível.



Hoje, a COPPE fornece biodiesel para caminhões da Comlurb -
Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro e para ônibus
da empresa Viação Real, a partir de um projeto com o Governo do Estado
do Rio. "Apesar de ser 10% menos eficiente do que o diesel, a
utilização de motores a biodiesel compensa pela redução da produção de
gases do efeito estufa. Além disso, a sua cadeia produtiva envolve
trabalhadores que atuam na plantação de oleaginosas e, também, no
recolhimento de óleos descartados, portanto, há um respaldo social
também na sua produção", explica o engenheiro de transportes Aurélio
Lamares Soares Mirta, pesquisador do IVIG - Instituto Virtual
Internacional de Mudanças Globais, da COPPE.



HIDROGÊNIO EM TECNOLOGIA NACIONAL



Outro projeto que contempla o transporte coletivo sustentável
dentro das cidades, é o ônibus a hidrogênio, desenvolvido pelo
Laboratório de Hidrogênio da COPPE. Com 12 m de comprimento - tamanho
de um ônibus urbano convencional - o veículo poderá transportar 80
passageiros.



Mas o grande diferencial desse ônibus é a sua tecnologia,
desenvolvida inteiramente por pesquisadores brasileiros. "Em outros
veículos já existentes no mundo, a pilha de hidrogênio, por meio de uma
reação eletroquímica, gera energia elétrica diretamente para o motor.
Mas, no nosso caso, criamos também um banco de baterias, que pode ser
alimentado por outras duas vias: por conexão a uma rede elétrica
externa e, ainda, com a regeneração de energia cinética em energia
elétrica, ou seja, o próprio movimento do veículo é aproveitado como
fonte de energia", explica o pesquisador Paulo Emílio Valadão de
Miranda, coordenador do projeto.



O ônibus híbrido da COPPE também tem outros segredos: como o banco
de baterias é grande, a quantidade de hidrogênio necessária para
alimentar o motor é menor. "Hoje, já há veículos que utilizam a
tecnologia mista, mas o nosso manejo da energia dentro do veículo é
inovador", diz Miranda.



O design, com base em princípios da ergonomia, inclui, ainda, uma
via especial de acesso a portadores de deficiência física, com espaço
destinado a abrigar cadeiras de rodas alinhadas aos demais assentos. O
projeto prevê que o veículo circule inicialmente na Cidade
Universitária, na Ilha do Fundão e, a partir de 2009, passe a trafegar
por uma rota convencional, transportando passageiros pelas ruas do Rio
de Janeiro. Boas idéias, que o carioca torce para ver, logo, circulando
por aí.